Pessoa
Tico
Julio dos Santos Menezes
anos 1870 – ?
Nasceu em Santo Amaro, Bahia, Brasil
Julio dos Santos Menezes, conhecido como Tico, foi um trabalhador portuário e capoeirista de Santo Amaro, no Recôncavo Baiano, que fez parte da lendária comunidade de capoeiristas do Cais Dourado em Salvador durante o final do século XIX e início do século XX.
Tico trabalhava como carregador e frequentava a Freguesia do Pilar, a paróquia que abrangia o distrito portuário onde estivadores, trabalhadores de cais e saveiristas se congregavam. O Cais Dourado era notório como um reduto da capoeira—um universo de trabalhadores marítimos que respiravam a cultura dos marinheiros em seu cotidiano e praticavam sua arte em meio à agitação do comércio e da carga.
O registro histórico captura Tico através de um incidente violento: ele foi preso após um confronto armado no qual empunhou uma faca de sapateiro contra o "grupo de Martins". A briga deixou-o com cortes nos braços, rosto e mãos. Esta documentação, provavelmente de registros policiais, é típica de como os capoeiristas da Camada Zero entraram no registro histórico—não através de celebrações de sua arte, mas através de encontros com as autoridades durante a era de criminalização.
Os contemporâneos de Tico no Cais Dourado incluíam alguns dos nomes mais célebres da capoeira antiga: o lendário Besouro Mangangá que chegava de Santo Amaro via saveiro, Pedro Porreta o vendedor de peixe que dominava a Baixa dos Sapateiros, Caboclinho o saveirista, e Antônio Corró o carroceiro que mais tarde ensinaria Mestre Paraná. Juntos, eles formavam uma comunidade de praticantes da classe trabalhadora que mantiveram a capoeira viva durante os anos de proibição, reunindo-se no cais, no Mercado Santa Bárbara, e durante festivais como a celebração de Santa Luzia documentada por Mestre Noronha em 1922.
Como muitos de sua geração, o destino de Tico após o início do século XX é desconhecido. Ele permanece como um dos ancestrais anônimos—trabalhadores africanos e afro-brasileiros que preservaram e transmitiram a arte durante seus anos mais perigosos.